Archive | dezembro, 2005

Soneto de Natal

24 dez
Por Machado de Assis

Um homem, ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,
Quis transportar ao verso doce e ameno

As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto… A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
“Mudaria o Natal ou mudei eu?”

Feliz Natal a todos, muita paz e felicidade e sonhos realizados.

O Vento

20 dez

 

fotoneruda

 

 

 

 

 

 

 

 

                                    Por Pablo Neruda

O vento é um cavalo
Ouça como ele corre, pelo mar, pelo céu.
Quer levar-me.
Escuta como percorre o mundo para me levar bem longe.

Esconde-me em teus braços por esta noite só, enquanto a chuva abre contra o mar e a terra suas incontáveis bocas.

Escuta como o vento me chama galopando para me levar bem longe
Com teu peito em meu peito, com tua boca em minha boca, nossos corpos atados ao amor que nos queima.

Deixa que o vento passe sem que possa levar-me.
Deixa que o vento corra coroado de espuma, que me chame e me busque, galopando nas sombras, enquanto eu, submerso, debaixo de teus grandes olhos, por esta noite só, descansarei meu amor.

Análise Sim(p)ática

15 dez

Eu gostaria que você fosse o substantivo que designasse as coisas da minha vida.
Que não se tornasse comum, mas que se revelasse cada vez mais próprio.
Um ser especial para mim.

Que você fosse bem mais simples e só se tornasse composto ao meu lado
Que você fosse o primeiro, aquele primitivo que soubesse criar
e não se tornasse derivado para apenas copiar

Que não ficasse somente abstrato como em meus sonhos,
mas que principalmente se tornasse mais concreto em minha vida.
Que você se tornasse coletivo e sozinho valesse por muitos…

Gostaria também que fosse o principal adjetivo de minhas comparações.
Queria que fôssemos os artigos definidos de nossas vidas e não indefinidos.
Que em numeral nos tornássemos apenas um: o “dois”.

Que nossos nomes fossem substituídos pelo pronome de plural: “nós”.
Que nós soubéssemos conjugar verbos regulares a dois.
Que ao nos querermos, conseguíssemos transpor todos os advérbios;

Principalmente os de tempo, lugar, negação…
e nos concentrássemos no de afirmação: sim.

Que encontrássemos nossa preposição de união, de companhia.
Que a única conjunção que nos coordenasse fosse a aditiva “e”.
Que nossas interjeições fossem sempre de alegria e admiração.

Gostaria também que você fosse o sujeito da minha oração.
Que fosse o predicado do meu coração.
Que fosse o complemento do meu verbo transitivo direto amar

Que fosse o adjunto adnominal que me acompanhasse,
o adjunto adverbial que me modificasse.
Que fosse o agente da minha vida passiva, o complemento do meu sonho nominal.

Queria também que fosse o aposto do meu explicar.
E o vocativo do meu chamar.
Análise completa: Eu te amo (aliás, Eu lhe amo).
Ou fica melhor: Eu amo você?

O Jogo da Amarelinha – Cap 7

15 dez

por Julio Cortázar

Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.

Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio.

Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.

Osculo

12 dez

O olho me caça,
A boca me chama,
O lábio me ganha,
A língua me toma.

O olho me queima,
A boca me banha,
O lábio me força,
A língua me invade.

O olho me salva,
A boca me adoça,
o lábio me morde,
A língua me mata.

Guilherme Goulart