Arquivo | março, 2006

Cativo

30 mar

Te confesso que, na verdade
Minha mente é tua cativa.
E minh’alma mantêm-se viva
Em teus olhos, pedras de jade.

Diz-me como não te amar
Se és, inteira, formosa e linda,
És fiel confidente e, ainda
És o ombro onde vou chorar?

Vem logo, anjo tardio,
Segue a estrada por qual me guio
De caminho mal acabado.

Só tu cabes no meu vazio,
Só tu nadas pelo meu rio,
Faz completo este apaixonado!

Guilherme Goulart

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IMORTAL

28 mar

Quem vive a temer a morte,
Esse monstro que vem sem hora.
E, em silêncio, maldiz-se e chora
Por prever tão iníqua sorte.

Perde, ao certo, um que de vida,
Deixa ir-se o pequeno instante,
Pois não vê que o tempo restante
É ilusão, beco sem saída.

Mas, por ser algo tão banal,
Sufocante como a loucura,
É de fácil e simples cura:
Só o amor te faz imortal.

Guilherme Goulart

Bianca, Parte 2 – A Missão

15 mar

Óh, deslumbrante Bianca
Que mistérios tantos esconde?
Que visão tua face branca
Que observa e não responde.

Quero a chave do teu mistério,
Um desejo que não se diga,
De viver este amor etéreo
Até quando não mais consiga.

Quando o fim murmure ao ouvido
Algo assim como um lamento,
Ante-sala do amor perdido,

Quero abrir meu pulmão ao vento
Que, de todo o amor já vivido,
Só do teu esquecer não tento.

Guilherme Goulart

CDs que estou ouvindo

11 mar


Pois é… 13 cds.
Não achei uma música ruim ainda…
Por isso que os “Fab Four” eram tããããão fodões…. Muita competência…

Recomendadíssimo! Quem não quiser ter deve ser ruim da cabeça ou doente do pé!
Heheeeeee!

Acomodação

10 mar

Eu sei que a gente se acostuma, mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E porque à medida que se acostuma esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A ler jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíches porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e a dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir a janela e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E aceitando as negociações de paz, aceita ler todo dia de guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que paga. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com o que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes, a abrir as revistas e a ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema, a engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às besteiras das músicas, às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À luta. À lenta morte dos rios. E se acostuma a não ouvir passarinhos, a não colher frutas do pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber. Vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente se senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda satisfeito porque tem sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.

A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma.