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Complexo do Príncipe Mijão

29 out

Num reino muito distante daqui, e por que não dizer também, ha muito tempo atrás (afinal isso é uma fábula e fábulas começam quase sempre assim). Dizia eu que…ah sim.

O que segue é a verdadeira história da bela Rishmi, filha única do rei Simi-Hale, que como já disse, vivia feliz no tal reino e tal… e tal…

Pois bem, a dita cuja, nem tão feliz assim vivia, diga-se de passagem, para o bem da verdade. A felicidade da impronunciável, mas adorável Rishimiririri, digo Rishmi, estaria completa, não lhe faltasse um grande amor. A Bela (assim pretendo chamar-lhe doravante, para não ter o sofrimento de escrever-lhe o nome), passava os dias sonhando cordada com esse tal eterno amor, que nunca vinha. Porém, certo dia (já observaram que toda fábula estúpida tem um, porém certo dia?), não agüentando mais a longa espera, resolveu consultar o pajé do reino, digo, o mago. Após um intenso e prolongado momento de meditação, o mago, disse em tom solene e apressado:

– Bela principesa, a resposta está nas altas montanhas do reino. Lá vive um gato mágico, ele tem a resposta para a sua pergunta.
– Mas um gato? – indagou a princesa
– É o que tá no script Bela. Um gato e só isso. Na dúvida vai reclamar com o autor dessa porcaria. Já ia descendo os ultimo degraus, que a conduziam até o grande salão principal, quando ouviu um chuá aterrador vindo das dependências do mago. Até os dias de hoje, o sumiço do mago, é um grande mistério. Alguns espertinhos que ousaram cogitar a possibilidade de que seria o autor que o fez descer pelo ralo, também sumiram misteriosamente.

Após algumas horas de caminhada, montanha acima, Bela observou sinais de fumaça, e resolveu ir de encontro, suspeitando que seria do gato mágico que ela procurava. Entristeceu-se ao aproximar-se e descobrir, às voltas de um braseiro, sentado em um toco de árvore e segurando uma formosa cuia, um bagual, pilchado (de adaga empunho), lá do Rio Grande esperando o momento certo da água para o mate.
– Te abanca, guria – disse o bagual – Vamo encurta essa lenga lenga, que tô com a casa lotada de cria lá em Quaraí, me esperando. O teu problema é encontrar o verdadeiro amor e o taura aqui tá de bom tamanho pra te dá a solução.
– Mas você não deveria ser um gato? indagou a bela, atônita com a situação.
– E tu acha, que com estas botas, eu sou o que? Pode me chamar de Tchê Gato. Sem mais perguntas, a princesa sentou-se e aguardou pacientemente, mas visivelmente contrariada, enquanto Tchê Gato lhe passava a cuia. – Brigada, não gosto de chimarrão. O bagual encarou-a com cara de poucos amigos.
– Bueno, para tu encontrar o verdadeiro amor – iniciou o gato – é preciso antes saber se tu tá preparada para ele, e isso nós só vamos saber depois que tu me responder o enigma que vou te propor.

O quebra cabeça consiste de algumas imagens que vou te dar e que tu deverá juntar da maneira que melhor lhe aprouver. A primeira imagem é de uma frondosa árvore, a segunda de uma colina verdejante, a terceira de um majestoso corcel, a quarta de um belo príncipe, e a quinta e última a tua própria imagem.

Alguns minutos depois, já certa de que tinha gravado bem as palavras do Tchê Gato, Bela fez um movimento com cabeça, indicando que ele poderia prosseguir.
Pois bem – disse o taura, servindo outra cuia – então me responda: onde está a frondosa árvore?
– Sobre as colinas. – respondeu, hesitante.
– Bravo, princesa! Mas então me diga, sem demora, e o majestoso corcel?
– Por certo pasta, próximo à frondosa árvore.
– Muito bem!!! Me diga sem pestanejar. onde vossa alteza está na cena?
– Sem dúvida, caminhando em direção ao meu amado príncipe!
– E, por último, diga-me. Onde está o valente príncipe?
– É óbvio. Montado no majestoso Corcel.

Minutos depois, não suportando mais o silêncio do taura que maneava os olhos sobre a cuia, ela observa lágrimas em seus olhos e pergunta:
– Que foi gaúcho, não fui tão mal assim, fui???
– Que nada guria, é a água que tá quente mesmo…
– Diga logo, Tchê Gato, fui bem na resolução do enigma???
– Nem mal nem bem tchê princesa, mas tu ainda não é capaz de compreender o verdadeiro amor. Volta pro teu reino, e quando tiver a solução manda o guri me avisar.
– Não pode dar-me a resposta gaúcho? Interpelou a triste Bela.
– Não posso guria, isso é algo que tu tem que encontrar por ti mesmo.
– Nem por uma nota de 100 dólares a mais na consulta?
– Bem nesse caso…mas te aviso, saber a resposta não significará ter a solução.
– Assim mesmo me diga. – exclamou Rishmi.
– Todas as tuas respostas estão corretas, menos a de onde está o valente príncipe. Na verdade ele não está sobre o cavalo – dizia-lhe Tchê Gato, enquanto guardava na guaiaca, a verdinha.
– E onde está ele afinal????
– Ele está atrás da frondosa árvore!
– Pra que? Fazendo o que??
– Mijando Bela… mijando….

Depois do ocorrido, Tchê Gato, voltou pra Quaraí. A princesa retornou para o reino.
Moral da história, Bela nunca encontrou seu verdadeiro amor, e diz a lenda que até sua morte, muitas vezes foi vista, pelas colinas, procurando alguém que estivesse atrás de uma árvore mijando.”

Guilherme Goulart