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Caixa do Escriba – Jorge Luís Borges

23 nov

Elogio da sombra

A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)
pode ser o tempo de nossa felicidade.
O animal morreu ou quase morreu.
Restam o homem e sua alma.
Vivo entre formas luminosas e vagas
que não são ainda a escuridão.
Buenos Aires,
que antes se espalhava em subúrbios
em direção à planície incessante,
voltou a ser La Recoleta, o Retiro,
as imprecisas ruas do Once
e as precárias casas velhas
que ainda chamamos o Sul.
Sempre em minha vida foram demasiadas as coisas;
Demócrito de Abdera arrancou os próprios olhos para pensar;
o tempo foi meu Demócrito.
Esta penumbra é lenta e não dói;
flui por um manso declive
e se parece à eternidade.
Meus amigos não têm rosto,
as mulheres são aquilo que foram há tantos anos,
as esquinas podem ser outras,
não há letras nas páginas dos livros.
Tudo isso deveria atemorizar-me,
mas é um deleite, um retorno.
Das gerações dos textos que há na terra
só terei lido uns poucos,
os que continuo lendo na memória,
lendo e transformando.
Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte
convergem os caminhos que me trouxeram
a meu secreto centro.
Esses caminhos foram ecos e passos,
mulheres, homens, agonias, ressurreições,
dias e noites,
entressonhos e sonhos,
cada ínfimo instante do ontem
e dos ontens do mundo,
a firme espada do dinamarquês e a lua do persa,
os atos dos mortos,
o compartilhado amor, as palavras,
Emerson e a neve e tantas coisas.
Agora posso esquecê-las. Chego a meu centro,
a minha álgebra e minha chave,
a meu espelho.
Breve saberei quem sou.

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Confira o trailer de Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton.

28 out

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Parece que Tim Burton encontrou a obra perfeita para exercitar toda sua loucura excentricidade: Alice no País das Maravilhas. Pois a maluquice lisérgica que mistura coelhos, rainhas, naipes de baralhos e espelhos, escrita por Lewis Carroll cabe perfeitamente no estilão visual único de Burton.

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Ele mistura captura de movimentos e animação 3D, com bonecos em stop-motion. O elenco inclui figurinhas carimbadas da filmografia do diretor: Johnny Depp (Chapeleiro Louco), Helena Bonham Carter (Rainha de Copas) e Christopher Lee (O Jaguardarte). Completam o elenco Anne Hathaway (Rainha Branca), Michael Sheen (Coelho Branco) e Mia Wasikowska (Alice).

O filme só estréia dia 5 de março de 2010, mas o site já tá no ar e o trailer já tá rodando pelaí. Confere aí:

A Audácia da Esperança

7 nov

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DESCRIÇÂO OFICIAL:         “O senador democrata Barack Obama, eleito no final de 2008 presidente dos Estados Unidos analisa o governo Bush, a vida política atual no seu país, a atuação do Congresso, as tensões religiosas e raciais, a intervenção norte-americana no Iraque e também outras questões mundiais, como o terrorismo e as pandemias nas páginas desta magnífica obra. Apesar de não ser exatamente uma autobiografia, a trajetória e experiência do senador também é exposta. Conheça um pouco mais sobre as idéias deste homem que em 2009 será o presidente do país mais podereso do mundo.”

 

 

Bom, precisa falar mais alguma coisa? Este singelo livro acaba de tornar-se um must-read para qualquer um que se interesse em política e viva no planeta Terra.

Eu, particularmente, quero ler.

Seria uma boa leitura para este final de semana….

Anjo

29 out

Se eu pudesse cantar esse teu sorriso
Ou quem sabe pintar essa tua pureza
Esculpir o futuro que profetizo
Fazer poesia da tua beleza  

Se contasse do bem que tu me fizeste
Ou da grande paixão que agora sinto
De que eu fui tocado por ser celeste
Meu bem os mortais diriam que minto

Que a loucura é o mundo por onde tanjo
Ou então com certeza que eu sou insano
Porque nunca no mundo existiu um anjo
Que tocasse a face de um ser humano

Guilherme Goulart

Complexo do Príncipe Mijão

29 out

Num reino muito distante daqui, e por que não dizer também, ha muito tempo atrás (afinal isso é uma fábula e fábulas começam quase sempre assim). Dizia eu que…ah sim.

O que segue é a verdadeira história da bela Rishmi, filha única do rei Simi-Hale, que como já disse, vivia feliz no tal reino e tal… e tal…

Pois bem, a dita cuja, nem tão feliz assim vivia, diga-se de passagem, para o bem da verdade. A felicidade da impronunciável, mas adorável Rishimiririri, digo Rishmi, estaria completa, não lhe faltasse um grande amor. A Bela (assim pretendo chamar-lhe doravante, para não ter o sofrimento de escrever-lhe o nome), passava os dias sonhando cordada com esse tal eterno amor, que nunca vinha. Porém, certo dia (já observaram que toda fábula estúpida tem um, porém certo dia?), não agüentando mais a longa espera, resolveu consultar o pajé do reino, digo, o mago. Após um intenso e prolongado momento de meditação, o mago, disse em tom solene e apressado:

– Bela principesa, a resposta está nas altas montanhas do reino. Lá vive um gato mágico, ele tem a resposta para a sua pergunta.
– Mas um gato? – indagou a princesa
– É o que tá no script Bela. Um gato e só isso. Na dúvida vai reclamar com o autor dessa porcaria. Já ia descendo os ultimo degraus, que a conduziam até o grande salão principal, quando ouviu um chuá aterrador vindo das dependências do mago. Até os dias de hoje, o sumiço do mago, é um grande mistério. Alguns espertinhos que ousaram cogitar a possibilidade de que seria o autor que o fez descer pelo ralo, também sumiram misteriosamente.

Após algumas horas de caminhada, montanha acima, Bela observou sinais de fumaça, e resolveu ir de encontro, suspeitando que seria do gato mágico que ela procurava. Entristeceu-se ao aproximar-se e descobrir, às voltas de um braseiro, sentado em um toco de árvore e segurando uma formosa cuia, um bagual, pilchado (de adaga empunho), lá do Rio Grande esperando o momento certo da água para o mate.
– Te abanca, guria – disse o bagual – Vamo encurta essa lenga lenga, que tô com a casa lotada de cria lá em Quaraí, me esperando. O teu problema é encontrar o verdadeiro amor e o taura aqui tá de bom tamanho pra te dá a solução.
– Mas você não deveria ser um gato? indagou a bela, atônita com a situação.
– E tu acha, que com estas botas, eu sou o que? Pode me chamar de Tchê Gato. Sem mais perguntas, a princesa sentou-se e aguardou pacientemente, mas visivelmente contrariada, enquanto Tchê Gato lhe passava a cuia. – Brigada, não gosto de chimarrão. O bagual encarou-a com cara de poucos amigos.
– Bueno, para tu encontrar o verdadeiro amor – iniciou o gato – é preciso antes saber se tu tá preparada para ele, e isso nós só vamos saber depois que tu me responder o enigma que vou te propor.

O quebra cabeça consiste de algumas imagens que vou te dar e que tu deverá juntar da maneira que melhor lhe aprouver. A primeira imagem é de uma frondosa árvore, a segunda de uma colina verdejante, a terceira de um majestoso corcel, a quarta de um belo príncipe, e a quinta e última a tua própria imagem.

Alguns minutos depois, já certa de que tinha gravado bem as palavras do Tchê Gato, Bela fez um movimento com cabeça, indicando que ele poderia prosseguir.
Pois bem – disse o taura, servindo outra cuia – então me responda: onde está a frondosa árvore?
– Sobre as colinas. – respondeu, hesitante.
– Bravo, princesa! Mas então me diga, sem demora, e o majestoso corcel?
– Por certo pasta, próximo à frondosa árvore.
– Muito bem!!! Me diga sem pestanejar. onde vossa alteza está na cena?
– Sem dúvida, caminhando em direção ao meu amado príncipe!
– E, por último, diga-me. Onde está o valente príncipe?
– É óbvio. Montado no majestoso Corcel.

Minutos depois, não suportando mais o silêncio do taura que maneava os olhos sobre a cuia, ela observa lágrimas em seus olhos e pergunta:
– Que foi gaúcho, não fui tão mal assim, fui???
– Que nada guria, é a água que tá quente mesmo…
– Diga logo, Tchê Gato, fui bem na resolução do enigma???
– Nem mal nem bem tchê princesa, mas tu ainda não é capaz de compreender o verdadeiro amor. Volta pro teu reino, e quando tiver a solução manda o guri me avisar.
– Não pode dar-me a resposta gaúcho? Interpelou a triste Bela.
– Não posso guria, isso é algo que tu tem que encontrar por ti mesmo.
– Nem por uma nota de 100 dólares a mais na consulta?
– Bem nesse caso…mas te aviso, saber a resposta não significará ter a solução.
– Assim mesmo me diga. – exclamou Rishmi.
– Todas as tuas respostas estão corretas, menos a de onde está o valente príncipe. Na verdade ele não está sobre o cavalo – dizia-lhe Tchê Gato, enquanto guardava na guaiaca, a verdinha.
– E onde está ele afinal????
– Ele está atrás da frondosa árvore!
– Pra que? Fazendo o que??
– Mijando Bela… mijando….

Depois do ocorrido, Tchê Gato, voltou pra Quaraí. A princesa retornou para o reino.
Moral da história, Bela nunca encontrou seu verdadeiro amor, e diz a lenda que até sua morte, muitas vezes foi vista, pelas colinas, procurando alguém que estivesse atrás de uma árvore mijando.”

Guilherme Goulart