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Caixa do Escriba – Pablo Neruda

11 jan

Para meu coração basta teu peito
para tua liberdade bastam minhas asas.
Desde minha boca chegará até o céu
o que estava dormindo sobre tua alma.

E em ti a ilusão de cada dia.
Chegas como o sereno às corolas.
Escavas o horizonte com tua ausência
Eternamente em fuga como a onda.

Eu disse que cantavas no vento
como os pinheiros e como os hastes.
Como eles és alta e taciturna.
e intristeces prontamente, como uma viagem.

Acolhedora como um velho caminho.
Te povoa ecos e vozes nostálgicas.
eu despertei e as vezes emigram e fogem
pássaros que dormiam em tua alma.

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Caixa do Escriba – Fernando Pessoa

9 nov
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Não quero rosas, desde que haja rosas.
Quero-as só quando não as possa haver.
Que hei-de fazer das coisas
Que qualquer mão pode colher?

Não quero a noite senão quando a aurora
A fez em ouro e azul se diluir.
O que a minha alma ignora
É isso que quero possuir.

Para quê?… Se o soubesse, não faria
Versos para dizer que inda o não sei.
Tenho a alma pobre e fria…
Ah, com que esmola a aquecerei?…

7-1-1935.

15 maio

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São só três ou quatro linhas. Em papel, pois você, neste momento, é longe. Se perto fosse, sussurraria estas palavras em teu ouvido como o maior segredo do mundo. Velado e profano, como todos os maiores segredos do mundo devem ser. Mas, devido à distância, jogo as frases ao vento, pra que dancem e te encontrem no teu repouso.

Agora, me sinto só. Acho curioso como só a falta de alguém nos dá a dimensão exata do tamanho espaço que ocupa em nosso dia a dia. Coisas cotidianas, subitamente se tornam a coisa mais prazerosa do mundo.

Tudo começa com lembranças de coisas pequenas, praticamente automáticas. Detalhes imperceptíveis de nós. O cheiro do despertar, o encostar do cabelo em meu rosto, os braços a me envolver a alma. A insignificância do toque. Tão esquecido, tão menosprezado. Toque que dá sentido, que guia, que contém, que liberta. Algum poeta algum dia falou que a beleza da vida está nos detalhes. Pois é. A sua também.

O mundo sem você torna-se uma grande arena onde enfrento os dias compridos, que se estendem preguiçosos e parecem ter mais de vinte e quatro horas. Onde as noites viram batalhas intermináveis na busca do teu rosto no meu sonho, tão efêmero e volátil.

Acabei de lembrar que iam ser só três ou quatro linhas. É que os textos, assim como o amor, começam pequenos. Uma faísca que acaba consumindo o ar em sua volta e se tornando algo grande demais pra caber em um só ser. Por isso essa idéia tem que ser escrita. E o amor, vivido por dois.

Te espero de volta. Espero o reencontro com teu riso fácil e teu olhar firme, com tua voz e tua mão. Então iremos nos mesclar num abraço desse tamanho e trocar beijos intermináveis ouvindo Little Joy. E decidir que, à partir deste momento, o mundo é nosso. E o universo ao nosso redor é apenas isso. Um pano de fundo. Cenário do nosso número principal.

Te Amo.    G.

A História Sem Fim

30 out

Era uma vez um reino com o nome de “Minha Conta Bancária”. Não era um reino grande, mas era estável, e possuía grandes aspirações de expandir seu território. Uma princesa começou a reinar sobre Minha Conta Bancária, ela era conhecida como “Minha Mulher”. Após a chegada dessa princesa, o reino ficou sobre uma forte ameaça: o “NADA”. Ele começou a atacar as regiões mais distantes do reino, fazendo elas simplesmente desaparecerem. O mal não parou por aí, continuou sua destruição até que, de vez ou outra, ameaçava até o antes impenetrável castelo de cristal, chamado de “Cheque Especial”.

Um grande guerreiro foi chamado para combater o NADA. E saiu em buscas de aventuras que pudessem salvar o reino e a princesa. Pegou seu corcel branco, apelidado de “Corcell 2”, e partiu para sua jornada.

Assim tem início a grande saga.

Logo no início nosso herói se depara com um grande desafio. O Oráculo do Sul, conhecido por muitos como “RH”. Uma enorme esfinge, onde o guerreiro precisa responder sabiamente todas as questões, senão é fuzilado instantaneamente por raios que saem de seus olhos, o perigoso “Deixe Que Entramos Em Contato”. Muitos fracassaram nessa tentativa. Graças ao seu alto QI e a ajuda de um pequeno e simpático casal de velhinhos, chamados de “Sogrão Q Por Acaso É Dono Da Empresa” e a “Sogrona Q Não Quer Ter Uma Filha Casada Com Um Vagabundo”, aliado com muita coragem, o herói derrota o Oráculo que bravamente tentou impedir o seu avanço. 

Em seu caminho nosso herói se depara com inúmeros seres fantásticos e extraordinários, como o gigante de pedra que passava por cima de tudo, chamado “Chefe”, ou o homenzinho que pilotava um caracol cortando todo mundo, conhecido como “Motoboy”. Mas seu grande parceiro de aventuras era um dragão com cara de cachorro que voava, apelidado carinhosamente de “Estagiário”. Sempre que estava com problemas, nosso herói montava em cima do Estagiário que sempre salvava sua pele.

Em meio de suas incríveis aventuras, houve aquele dia fatídico. Sua missão era encontrar um grande sábio que poderia ter a resposta para derrotar o NADA. Era uma tartaruga gigante que vivia em um mar de lama e respondia sobre o nome de “Consultor”. Mas não seria fácil. O Consultor vivia numa região longínqua do reino, cercada de inúmeros perigos. Em pouco tempo, seguindo bravamente com seu Corcell 2, nosso herói encontra um pântano perigoso nomeado de “Enchente”. Tentando transpor a Enchente, o imponente corcel branco acaba cedendo e morre lutando honrosamente. Seu grande companheiro de tantos anos o abandonara. Mais que nunca pensou no perigo que o NADA representava e continuou impávido seu percurso. Mas a tartaruga não respondeu nenhuma de suas perguntas e ainda espirrou em sua cara inúmeras vezes.

Ainda hoje nosso herói continua sua eterna luta contra o NADA, que parece imbatível.

Mas não pode ser! O NADA não pode vencer! Apenas uma coisa pode derrotar o NADA: você leitor. Você, que está lendo esta história, pode salvar o reino da Minha Conta Bancária. Reuna sua coragem, acredite na possibilidade. Abra a janela do seu sótão e grite bem alto o nome do autor desta crônica e faça um cheque nominal a ele.

O reino da Minha Conta Bancária está agora em suas mãos. 

Guilherme Goulart

Beijo Velado

30 out

Entre longos cabelos, oculto, meu rosto
Paira no céu das estrelas pulsantes.
E, no ritmo extremo dos peitos arfantes,
Encontro o nascer deste sol antes posto.

E o brilho dos olhos reflete o presente
Envolto por brumas de tempos de outrora,
Levando-me a mente a pensar que o agora
É a parte que importa, a flor da semente.

E é ali, encoberto por tão doce olor,
Que sei que, um dia, desejo morrer,
Cansado do mundo, sem mais recorrer,
Em um beijo velado de tanto sabor.

Guilherme Goulart